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Emília nasceu numa casa pobre do Freixo, numa madrugada fria de 1945.
O pai, Adelino, era o seu porto seguro; a mãe, dura e imprevisível.
A infância foi breve: aos nove anos perdeu o pai e, pouco depois, a mãe enlouqueceu e morreu.
Sozinha, aos catorze anos, foi levada para Coimbra, onde a vida a recebeu com trabalho pesado e exploração.
Cresceu a servir casas, lojas e mercearias, entregando sempre o salário a quem mandava nela.
Mas Emília tinha uma força silenciosa.
Fugiu aos vinte e sete anos, procurando finalmente a própria liberdade.
Regressou a Coimbra e, num domingo de chuva, conheceu Fernando — o Nando —, o homem que lhe mudaria o destino.
O amor veio acompanhado de perseguições e ameaças da família dele, e Emília, cansada de medo, tomou a decisão mais corajosa da sua vida: emigrar sozinha para o Luxemburgo.
Chegou sem falar línguas, sem conhecer ninguém, com uma mala pequena e um coração enorme.
Trabalhou em hotéis e cafés, lutou por papéis, por dignidade, por um lugar no mundo.
E o destino, teimoso, voltou a cruzá-la com Nando.
Recomeçaram juntos, pobres, mas unidos.
Em 1981 nasceu a filha Júlia, a luz que iluminou tudo.
Em 1989 casaram-se, selando uma história feita de luta e amor.
Construíram casas, fizeram obras com as próprias mãos, criaram raízes em Bascharage.
A filha cresceu, estudou, venceu.
Vieram os netos Pedro e Nelson, tesouros que lhe encheram o coração.
Vieram também doenças, quedas, hospitalizações e, por fim, o diagnóstico de Alzheimer.
Mas nunca lhe faltou amor.
Emília partiu em 2022, deixando atrás de si uma vida inteira de coragem.
A filha do lavrador, que nasceu na pobreza e viveu na luta, deixou no mundo o rasto luminoso de quem amou sem medida.


