Insira abaixo o email associado à sua conta e clique em "enviar". Receberá no seu email um link a partir do qual poderá criar uma nova password.
"(...) O que [tem falhado na construção europeia] é uma definição de Europa. Geograficamente parece ser pacífico que a Europa é o espaço compreendido entre os Urais e o Atlântico Norte, e o Mediterrâneo e o Oceano Polar Ártico. Europeus serão portanto os habitantes desse espaço geográfico, e que resultou de migrações muito diversas ao longo dos tempos (...) [Os] europeus não são autóctones da Europa, mas apenas os ocupantes históricos desse espaço. Uns mais antigos, chegados há dez mil anos, outros – como os hunos – chegados há menos de dois mil anos. Mas só fará sentido falar de “europeus” se eles algo mais tiverem em comum do que o espaço geográfico ancestral que ocupam. Para que essa designação tivesse sentido, seria necessário que a partir dela se pudesse caracterizar alguém como europeu. O europeu tem a pela escura ou clara? Tem cabelo loiro, castanho ou preto? Tem olhos azuis ou castanhos? Fala uma língua comum (o “europeu”)? Tem a mesma religião? Partilha de uma mesma cultura? Partilha do mesmo corpo de leis e possui instituições políticas semelhantes? Existe um projeto europeu comum a todos os europeus?...
É evidente que uma comunidade coesa e solidária não necessita de ser geneticamente homogénea, e é até desejável que o não seja. Mas para que essa coesão e solidariedade estejam presentes – sem as quais se não pode falar de comunidade – terá de haver uma certa coerência de cultura, de valores e objetivos. Aqueles que, como Victor Hugo ou os chamados pais da Europa, propuseram uma Europa unida, deveriam saber que para que ela fosse possível, não bastava que houvesse uma população sediada no território a que chamamos Europa. Era necessário que os europeus se identificassem como tal, que formassem uma verdadeira comunidade, que partilhassem valores e objetivos comuns, que se sentissem fortemente solidários uns com os outros. Estariam Victor Hugo e os pais da Europa cientes deste problema? Achariam que a Europa podia começar a ser feita sem isso, porque a própria prática da cooperação a isso acabaria por conduzir?
À Europa não basta querê-la. É necessário que o modelo para ela pensado seja possível. Se há certamente muito que nos pode unir, também há muito que nos pode dividir (...)"















