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Naufrágios na Costa de Esposende
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Naufrágios na Costa de Esposende
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Detalhe
Editora:
Chiado Books
Data de publicação:
2018-01-03
Páginas:
526
ISBN:
978-989-52-1990-2
Colecção:
Ecos da História
Género:
Não-Ficção
Idioma:
Pt
Sinopse

NAUFRÁGIO

«Tarde mui serena.

Os confins do Poente.

Ofuscam uma luz, uma fornalha ardente,

E o sol, num baço foco de centelha,

Vai dando às águas uma cor vermelha.

‘Stá sereno o mar. O espaço reverbera

Em breve, surgir medonha atmosfera.

Grossas nuvens, nuvens d´agua e ventanias.

Cingem o dorso escuro, e fugidias,

Vão-se aglomerando em forma hórrida,

Como alta e ‘scarpada serra erguida

 

O mar ulula: e sinais de grã procela,

Vão cobrindo a tez à lua pálida,

Coberta por um véu de cor esquálida.

Ao longe, zurze a vaga rancorosa…

Que faz prever uma noite tenebrosa:

O trovão surdino estruge no Ocidente,

As águas vão tomando fúria ingente.

 

E os leões-do-mar, os pescadores,

Que conquistam os mares de fronte erguida,

A quem o peito se trespassou de dores,

Vendo morrer as forças, exaurir a vida,

 

Levantam coro, e oram ao Altíssimo,

P’ra que os livre das garras do Oceano,

Desse monstro, desse antro de leão hircano,

Do abismo de Neptuno fecundíssimo.

 

Mas… o sol deixou há muito de brilhar,

Agora só se ouve o vagalhão do mar!

Surge o tufão, quasi inesperadamente,

Que horrorisa o coração daquela gente.

 

E em redemoinho, o fervor do escarcéu,

Os pescadores depressa surpreendeu…

Enfurece as águas Neptuninas,

Como rancor de feras viperinas…

E o batel em breve tempo mergulhou,

N’aquele abismo, já tudo se afundou!

 

E deste grande naufrágio

De muitos espinhos, horrores,

Entre martírios e dores,

Apenas um sobreviveu:

Dos vinte e cinco infelizes

D’entre destroços, escarcéus,

Salvou-se um só: Santo Deus!

À morte um só fugiu, venceu!...

 

E então, depois de consumado o drama,

Que horrível noite…Que triste panorama!...

 

Mas a Caridade, o popular arcanjo,

Desdobra o seu manto. E o Santo Anjo,

Socorre a viuvez e a orfandade!...

 

Seja bendito o Anjo da Caridade!...

Salvé! Salvé! protector da Humanidade

 

Álvaro Pinheiro,

 In “NAUFRÁGIO” (18 de outubro de 1888) 

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