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A Covid-19 marcou um período revolucionário na vida das pessoas.
Ninguém contava ter de ficar fechado dentro de casa, sem acesso às pequenas banalidades do dia-a-dia: as conversas com os amigos, o café, o passeio pelas ruas apinhadas de gente.
Nas escolas, o ensino reinventou-se.
Passou a ser à distância.
Alguns ainda se lembravam da Telescola e diziam que era parecido.
Nem sempre a Internet funcionava como devia. Havia sítios sem rede.
As notícias eram díspares e, por vezes, disparatadas.
Apareciam aqui e ali notícias falsas que davam origem a discussões sérias e aparentemente fundamentadas.
As dúvidas iam-se instalando nas pessoas.
A ciência passou a ser olhada com desconfiança.
Todos julgavam conhecer uma solução simples para aquilo que se estava a passar, apesar do número crescente de mortes.
Já não existia gente viva do tempo da pneumónica para contar como tinha sido.
Restavam apenas registos documentais.
A situação tanto parecia semelhante como profundamente diferente.
Suspeitava-se de uma conspiração muito bem orquestrada.
As teorias da conspiração manifestavam-se abertamente em cada canto e esquina.
Falava-se na ganância das farmacêuticas, dispostas a ganhar à custa do pobre mortal.
A arte só podia ser feita dentro de casa e partilhada on-line.
Os vizinhos faziam festas de varanda para varanda, de lá para cá e de cá para lá.
Nada seria como dantes.
Jurava-se, afirmava-se e batia-se no peito, gritando: «Aprendemos a lição.»
A cooperação venceu.
O malvado vírus foi sendo escorraçado aos poucos.
Desses meses, semanas, dias e horas nasceram estas memórias, que se foram construindo pouco a pouco e abrangem pouco mais de um ano de tristezas e desgostos, mas também de esperança e resiliência.
A realidade do dia anterior podia até ser classificada como mentira no dia seguinte.
Porém, foi sempre vivida e percebida como a tragédia ou a esperança que, afinal, não viria a concretizar-se.














