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CLARA ERA A POESIA
Sem preocupações de rima ou de métrica, António José Silva retoma vozes há muito desaparecidas da escrita portuguesa para escrever os seus versos como os japoneses escrevem os seus hai-kus: simples, certeiro, parco de palavreado, por entre centenas de referências às manifestações da Natureza que inovam todo o seu trabalho.
Em "Clara era a poesia", por exemplo, o primeiro verso fala-nos logo de "o amanhecer cinzento duma fria neblina", seguida de "nesta doce invernia", "os sinos tocam", "a chuva que cai docemente".
Obrigatórias na arte japonesa em dezassete sílabas métricas, as maravilhas do mundo vivo sucedem-se na escrita brilhante de um autor que sabe permanecer modesto e timorato perante todo o planeta que o rodeia: "a poesia nasce na alma/percorre o leito dum rio por águas que desaguam no nosso peito/as palavras caem em lagos/passando por cima de cisnes e de campos verdes". Como dirá o autor a certo passo, "a vida é isto/às vezes um sonho". Eu acrescentaria apenas, tão suave como a neve que António José Silva, tantas vezes invoca, que "isto é muito bom."
Clara Pinto Correia


















