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A ideia de terra e o mesmo será dizer de país, de uma forma abrangente e consistente, está intimamente relacionada com todo e qualquer sentimento que se tem acerca da existencialidade ocorrida desde a infância ou meninice até àquele ponto crucial em que todo o ser humano toma consciência da sua identidade integral.
Ninguém consegue personalizar o conceito de si próprio sem que se veja na necessidade imperiosa de recorrer a todos os espaços percorridos por si ao longo da sua própria história, ou seja, à consciencialização da sua memória pessoal nas relações havidas de si mesmo com todos aqueles que fazem ou fizeram parte de cada um dos momentos existenciais.
Assim, os elos da família, da vizinhança, das localidades percorridas, sejam sob a forma de tempo longo ou tempo curto, as vivências da escola, da juventude, dos amigos ou mesmo das mais diversas pessoas com que nos cruzamos na vida, tudo isso faz parte daquele conceito que se tem não só da “terra de cada um” como mesmo da identidade de cidadania, dentro de um país comum.
A juntar a esta consciência colectiva há, ademais,todas aquelas circunstâncias que ficam gravadas na memória ao longo do tempo, como os costumes, as tradições, os estilos e modos de vida, os hábitos adquiridos e, duma forma mais profunda, a consciência cultural imanente, como seja a educação, as relações estreitas entre pessoas e a partilha de vida no interior da região de que cada um fez ou faz parte.
Em todos estes contextos referidos tem-se como certo a ambiência que resulta dos contactos sociais em geral e que se processam de uma forma dita natural e ou mesmo convencional. Daí resulta necessariamente o estabelecer de patamares interrelacionais mais ou menos profundos, sem os quais a noção de “terra” e de “país” paira numa espécie de vazio entre gerações. Estão neste caso os factos marcantes, ou seja, os momentos altos das relações humanas. Assim, os convívios, as festividades, as ocorrências no seio das diversas amizades, sejam familiares ou sociais, são todas elas o combustível gerador de um mar de emoções e de experiências partilhadas nas quais, em suma, consiste o sentimento de saudade e de identidade colectiva.
É na inter-relação de todos estes factores familiares e sociológicos que está o elo de harmonia que faz com que valha mesmo a pena toda e qualquer convivência.
Embora saibamos que poderão existir aspectos mais ou menos positivos ou mais ou menos contraditórios – todos somos seres humanos – é sempre possível um clima de convivência sadia que todos sentem ser indispensável. E é a esta “virtude de saber conviver” que eu chamarei de Canção, ou seja, aquele «estado de alma» que sempre tem em conta tudo o que contribui para que a vida familiar e social possa ser agradável e prazenteira.
E muitos são os motivos que poderão conduzir a esse estado de alma, nomeadamente se se tem a consciência de que há sempre algo de belo e de agradável na vida humana. Uma só postura nos compete que é conseguir sublimar o dia-a-dia, que por vezes nos é desfavorável, num patamar sempre possível de poesia e de amizade. Ser poesia em todos os tópicos da vida e em todos os pontos de vista será meio caminho andado para haver canção, isto é, para haver sã convivência e alegria de viver.
Aquilo a que chamamos terra, a nossa terra, adentra, em nós, uma nostalgia que necessariamente nos faz cantar; aquilo a que chamamos país, o nosso país, abarca em nós um sentimento de saudade e de fado que nos instiga ao acto de cantar. É isto ser Poesia, é isto ser Canção.
E ser Canção é uma forma de valorizar e engrandecer aquilo que cada terra tem de genuíno, independentemente da região do país em que está situada. Por outro lado, todas as gentes de todos os quadrantes geográficos merecem essa homenagem e reconhecimento.
Em toda a história das aldeias, das vilas, das cidades e até nos mais recônditos lugares, desde o litoral ao interior, desde o norte ao sul, se revelam, nos aspectos mais inesperados, pormenores civilizacionais e culturais que se destacam entre si e que, em última instância são o acervo patrimonial de cada povo.
Estimar e engrandecer esse património deverá estar nos horizontes permanentes da arte poética.
Frassino Machado

















