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“Abriu os olhos à escuridão.
Não reconhece logo a casa nem o quarto, só conhece a figura encolhida a seu lado.
O negro encaracolado pintava a almofada branca de linho e o rosto moreno recortava a luz da janela.
No lençol, a mancha de saliva, pequena e envergonhada pelo escorrer da boca entreaberta.
O braço amparando o queixo, conhecia-a, era a melhor amiga.
Ou talvez a Leonor o fosse e não ela, teria de decidir isso rapidamente.
Porque quando te perguntam quem é a tua melhor amiga, não podes hesitar, fica mal, parece que não tens certezas na vida.
A melhor amiga define cada um, dá-lhe os contornos da sociedade onde existe.
Uma sociedade em tempo e dinheiro, em classe social.
Agora, não quer escolher, está enfeudada à figura da cama ao lado e é tudo.
Tem dinheiro, tem mãe, tem festas como esta e mais amigas.
À volta delas, os pijamas de mais três saem da sombra.
Em camas verticais umas, e outra ao lado dela, o outro lado.
A luz não lhe chega e permanece sombra e assim ficará até de manhã ou até o candeeiro da rua apagar.
As empilhadas, irmãs, têm louros caracóis de histórias medievais.
No centro, ela, nem morena nem loura, de um castanho amorfo e vulgar, sem muito dinheiro, com pais que vivem juntos e não gritam para se ouvirem.
Os pais das outras são um puzzle louco de peças que se cruzam, em simultâneo, no tempo e no espaço.
As irmãs filhas do pai e a outra da mãe.
E a Laura no meio das peças, a equilibrar umas e outra.
As de fora, que não partilham pais, dormem no outro quarto, na ponta do corredor.”















